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As Lágrimas de Lis.

Ela se sentia triste. Não era "mais uma crise" como sua mãe costumava dizer quando a via trancada em seu quarto escutando The Smit...

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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Contos de Airehte. Fragmento IX. Fantasia

Um breve momento de silêncio se seguiu após as palavras de Marue'Nir. Neste intervalo, o arcano aproveitou para dispersar a fumaça da clareira com mais um artefato, facilitando assim observar as expressões faciais e reações dos interrogados. Concentrou um pouco de sua própria energia no objeto arcano, apertou um botão no extensor de ar e o arremessou em direção ao centro do espaço aberto em que estavam. Assim que o objeto tocou o chão um barulho seco ecoou pelo local e uma rajada de ar acertou as árvores ao redor da área. O vento também atingiu os três que ali estavam, fazendo as roupas e os cabelos de todos dançarem suavemente com a brisa, de forma semelhante às copas das árvores. Com olhos atentos a todos os detalhes daquela cena, o espião notou que no pescoço da soldado, outrora encoberto pelos longos cabelos castanhos da mulher, existia uma tatuagem de um preto intenso, na forma de uma flecha para cima e com um círculo de cada lado do corpo do projétil, sendo um totalmente escuro e outro apenas a circunferência.

- O que uma sargento das flechas negras está fazendo aqui em Hazifer, além das fronteiras da cidade púrpura, vestida como uma soldado da guarda, numa missão de captura?

A mulher demorou um pouco para responder a pergunta de seu captor. Marue a observou sentar-se com dificuldade, constantemente apalpando a lateral direita do tronco. Mas sua expressão denunciava que algo mais a perturbava além da dor e da ameaça que o espião representava a suas vidas. Orgulho ferido talvez?


- Eu fui designada para acompanhar o pelotão de soldados que partiu de Bras'Illumitene, garantir que o espião fosse encontrado e capturado, se possível.

- Parece que o jogo virou senhorita...? – Provocou o arcano, querendo confirmar suas suspeitas sobre o ego sensível da Sargento

Gilda... Gilda de Chermont’Amell

- Mas você não faz parte das forças da cidade, nem você. - Disse o arcano se voltando para o velho soldado que em nenhum momento tirava os olhos do anel na mão direita do mestiço.

- Nós dois somos de Endogen'Ruri. - Respondeu o soldado, agora encarando o olhar penetrante do arcano. E continuou, sabendo que não adiantava esconder nada do jovem. Aqueles olhos não eram de alguém que se podia enganar.

- Nossa missão era escoltar o portador da carta oficial e assegurar que esta chegasse ao capitão da companhia local.

- Missão que completaram. Mas até aí não explica o fato de ambos estarem aqui agora. Por que não voltaram para a cidadela da Biblioteca Suspensa?

- Quando a carta foi entregue ao capitão fomos notificados que faríamos parte da missão descrita no documento.

- Eles não mandariam dois guerreiros introduzidos nas artes apenas para garantir a prisão de um espião - ponderou o mestiço, falando mais para si do que para os interrogados sentados a sua frente, e continuou - A não ser que soubessem do que eu era capaz e quais eram os meus objetivos.

- Mas eles sabiam exatamente do que você era capaz. - Afirmou a mulher, dando um sorriso - E o mais curioso é que dentre as ordens descritas na carta existia uma que nos impedia de compartilhar as informações sobre você com os soldados.

Marue' Nir não gostou do que ouviu. O fato de saberem do que ele era capaz o preocupava, pois não tinha entrado em combate aberto em nenhum momento durante sua missão em território imperial. Para terem tais informações eles teriam que ter algum agente dentre o comando de inteligência da F.L.R. Entretanto, se isso fosse verdade, as forças inimigas já teriam criado oportunidades bem mais claras de eliminar um agente tão perigoso quanto ele. Não esperariam que o espião saísse do território para ataca-lo no meio da floresta das trevas, a poucos quilômetros de uma cidade inimiga. Só restava uma opção.

- Essas ordens têm relação com o Oráculo de Mármore?

- Isso tem tudo haver com o oráculo. - respondeu o velho, deixando escapar uma risada fraca.

- Como assim? - Perguntou Marue'Nir.

- Ninguém sabe exato quando começou, na Batalha dos Arcos de Pedra ou se foi no Cerco ao Palácio de Mármore, mas o fato é que desde a conquista das terras sob a montanha de Kazel Gogui as missões mais importantes recebem um selo a mais de acordo com a dificuldade: o Selo do Oráculo; Uma carta com uma vela acesa no centro. 

- Eu sei que as cartas de missões do Império recebem selos de militares de diferentes patentes de acordo com a dificuldade e importância das-

- Você vai ficar me interrompendo ou vai me deixar terminar? - Disse a sargento encarando o espião com a mesma intensidade com que ele a olhava.

"Gostei da atitude dela, é uma pena que estejamos em lados opostos" pensou o mestiço, sem deixar transparecer em sua feição a admiração pelo espírito da garota.

- Então termine.

- A "sua carta" tinha o selo de três das figuras mais importantes do Império: O oráculo, o marechal e a rainha.


(Continua)




Contos de Airehte. Fragmento VIII. Fantasia

Entretanto, o arcano não teve tempo para recuperar o fôlego e muito menos se dar o luxo de prestar atenção na dor dos ossos quebrados. O velho surgiu da fumaça atrás dele, desferindo um golpe horizontal com a espada larga na altura do peito do mestiço, que escapou ileso da ofensiva do inimigo ao dar um pulo rápido para trás. Sem desperdiçar tempo, estendeu seu braço direito e com a palma da mão apontada para o soldado conjurou uma esfera de fogo, disparando-a com o comando mental "avance e queime".

O soldado que ainda estava de pé demonstrou que era mais do que um "simples guarda da cidade" como o espião tinha estipulado. Momentos antes da esfera de fogo o atingir ele a cortou ao meio com um golpe vertical de sua enorme espada. Porém, no espaço de tempo entre o disparo da arcana de fogo e o aparar do soldado, Marue' Nir encurtou a distância entre os dois e assim que o velho terminou seu movimento de defesa, ficando com a ponta da espada quase ao nível do chão, o arcano deu-lhe um soco no rosto, aproveitando a abertura. O soldado deu alguns passos para trás e, desequilibrado, tentou retribuir o golpe sofrido, mas sem sucesso. Pelo contrário, levou um segundo golpe do mestiço, dessa vez um chute, logo após seu soco ter sido facilmente evitado pelo jovem espião. Como resultado desse chute na boca do estômago o velho caiu de joelhos, evitando um terceiro golpe ao colocar as mãos no chão e conjurar uma parede terra entre ele e Marue.

O segundo chute do Arcano foi bloqueado pela arcana de terra do soldado que, por sua vez, aproveitando o momento, deu um soco que atravessou a proteção que erguera segundos antes, acertando o alvo desejado; o rosto do mestiço. Marue cambaleou alguns metros para trás mas logo se pôs de pé pois sabia que o velho não desperdiçaria a vantagem que estava tendo naquela luta. Assim que levantou o espião foi forçado a desviar de um pedregulho que foi arremessado contra ele, pelo velho, enquanto ainda estava rolando no chão. Logo após a evasiva olhou para cima e viu que mais três fragmentos do muro erguido pelo soldado estavam prestes a cair sobre ele. Apontou a palma da mão para os pedaços de pedra e disparou uma esfera de fogo contra cada um deles. A explosão resultou em mais poeira, que distraiu o arcano, dando tempo para que o soldado recuperasse a espada larga e partisse para o corpo-a-corpo novamente.

Assim que abriu os olhos o mestiço percebeu que o inimigo estava bem a sua frente, com a espada erguida sobre a cabeça e prestes a iniciar o movimento de queda fatal. Percebendo que não teria tempo para esquivar o arcano lançou mão de um dos artefatos mais poderosos que tinha. Rapidamente concentrou sua atenção no anel da mão direita e sussurrou:

- Tome a forma da minha vontade!

Em sua mão materializou-se uma espada feita puramente de chamas irriquietas e de aspecto selvagem. Assim que a lâmina de metal entrou em contato com a espada arcana seu corpo se partiu em dois. Ou melhor, a lâmina de fogo derreteu o metal da espada do velho sem nenhuma dificuldade. O soldado foi pego de surpresa e ficou completamente sem reação. Marue' Nir estava prestes a desferir o golpe final quando atrás dele a jovem mulher gritou:

- Não mate o meu avô!

E, por reflexo, o espião parou o golpe a meio caminho do alvo. Ele não tinha entendido, a princípio, o porquê de ter se contido, uma vez que seu plano inicial era realmente eliminar o mais velho dos dois soldados. Porém, passados alguns segundos de silêncio na clareira, ele percebeu, com certo alívio, que não tinha atravessado a fronteira entre ser um espião, matando para cumprir os objetivos e ser um assassino frio, matando por esporte. Tendo estabelecido um laço afetivo entre os prisioneiros permitia que ele obtivesse informações utilizando a vida de um como moeda de troca com o outro.Muito melhor que contar apenas com um prisioneiro que poderia muito bem aceitar a própria morte em algum momento. Quando se trata de um ente querido as coisas mudam. Sendo assim ele não precisaria matar o velho, evitando que o número de almas em sua conta aumentasse, pelo menos por alguns instantes.

- Permanecer vivo dependerá de como vocês irão se portar. Eu tenho perguntas e quero respostas. E não adianta mentir, eu saberei se o fizerem.

(Continua)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Contos de Airehte. Fragmento VII. Fantasia

Nos primeiros momentos os dois soldados permaneceram onde estavam, mas logo deduziram que eram alvos fáceis mantendo aquela posição e que a fumaça servia apenas para facilitar o objetivo de seu oponente. Entretanto a mulher fez algo que Marue não esperava: Com as mãos unidas, juntou as pontas dos anelares dobrados e esticou os dedos indicadores, também unidos. Este gesto era conhecido muito bem pelo Arcano que já tinha enfrentado diversos de seus conhecedores; os Arcanos de Terra. Em seguida sentou,fincou os dedos indicadores no solo e em pouquíssimo tempo paredes de terra dura foram erguidas na frente dos dois sobreviventes, impedindo a visão de Marue'Nir.

"Eles querem fugir pela floresta!" pensou o mestiço, que logo saiu de trás do tronco que usava como base. Correu em direção ao centro da clareira enquanto projetava esferas de fogo das chamas dos demais troncos e as disparava contra as árvores atrás da parede de terra. As árvores que entraram em combustão formarão um paredão de fogo e pelo seu cálculo eles não tiveram tempo de chegar até o restante da floresta. Marue não queria causar um incêndio mas não podia se arriscar numa caçada sendo que ele ainda podia estar sendo caçado.

Porém, por não terem desistido de seu objetivo inicial ou por perceberem que tinham entrado num embate de vida ou morte, os soldados não criaram aquela barreira toda para terem uma chance de escapar, mas sim para tirarem o espião de sua base e terem a chance de ataca-lo no corpo a corpo; eles usariam da fumaça e as táticas de guerrilha do fugitivo contra ele.

Assim que Marue chegou perto da barreira de terra a sessão dela a sua frente explodiu e seus pedaços foram todos em sua direção; a soldado utilizou a arcana da propulsão de rochas  para feri-lo com os fragmentos da barreira. O mestiço só teve tempo de proteger o rosto e peito com os braços. Assim que o fez escutou a mulher gritando: " Agora, Orcil!". O velho tinha subido numa plataforma de terra que superava a altura das primeira barreiras e ao som do comando de sua companheira pulou de lá com a espada de duas mãos erguidas sobre a cabeça. Marue'nir conseguiu desviar da espada do velho, por muito pouco, ao se jogar para a esquerda; o chão onde esteve segundos antes ficou completamente raçado com o impacto do golpe do soldado mais experiente. Entretanto, ela estava esperando esta esquiva de Marue'Nir e já tinha calculado o trajeto que o mesmo faria. Quando este se ergueu  a soldado desferiu um golpe de adaga visando o pescoço do fugitivo; golpe que não acertou o alvo. 

No momento que se levantou, e a adaga da mulher já estava na trajetória de seus pescoço, o arcano impulsionou seu braço esquerdo conjurando e disparando uma esfera de fogo contra o chão. A arcana deu velocidade suficiente ao movimento do mestiço que interceptou a adaga da mulher. Entretanto, a força do impacto foi o suficiente para quebrar seu braço, que só não foi decepado a meia altura do ante-braço pelas manoplas que o mesmo estava usando. Aproveitando a força que o impacto do golpe sofrido proporcionou o mestiço realizou um chute giratório que pegou em cheio a mulher na altura das costelas. Pega de surpresa pela contra-medida adotada pelo espião a soldado recebeu o golpe sem defesa alguma e caiu no chão, se contorcendo de dor. provavelmente alguma costela foi quebrada.

(Continua)


sábado, 18 de junho de 2016

Contos de Airehte. Fragmento VI. Fantasia

Pensou em se esgueirar silenciosamente até os dois, mas não existiam troncos posicionados numa distância plausível dos alvos e que servissem de cobertura para sua ação sorrateira. Teria que faze-los se movimentar pela clareira, mas estava sem dispositivos arcanos. Só restava ao arcano lançar mão das artes para agita-los e criar uma abertura. Porém, depois de meditar um pouco sobre a dificuldade do plano inicial, chegou a uma solução diferente: usaria os troncos para, ao queima-los, produzir fumaça que dificultasse a visibilidade dos dois soldados. Não precisava fazer com que se movimentassem, podia se aproximar sem ser notado e dar o bote.

Não podia entregar sua posição, logo não poderia usar arcanas de longa distância; não queria correr o risco dos dois perceberem bolas de fogo cruzando os vãos entre os troncos. Agitaria as partículas de fogo ao redor dos restos de árvore para fazer com que entrassem em combustão. Fechou os olhos e mentalizou a clareira. Mudou seu foco para os troncos espalhados ao redor dos dois alvos e, facilmente, trouxe a tona lembranças referentes à ação do fogo sobre as coisas. Entretanto, o prazer obscuro que o mestiço sentia em incendiar seus alvos nas batalhas começava a tomar conta dele. Afastou a nostalgia rapidamente. Não podia perder a medida da vibração que criava; não era seu intuito explodir a clareira num frenesi piromaníaco. Tinha que manter o controle. Não demorou muito e abriu os olhos dando o comando: "Queime". Assim que o fez chamas romperam das fendas nos troncos e fumaça começou a povoar a clareira que cada vez mais se assemelhava a um campo de batalha.

(Continua)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Contos de Airehte. Fragmento V. Fantasia.

Pela inquietação deles e a forma pela qual o garoto adentrou a clareira o espião percebeu que eles não tinham a capacidade de localiza-lo pelo método das vibrações; eram incapazes de sentir sua essência ecoando na natureza. Marue'Nir concluiu que eles estavam sendo utilizados como peões a serem sacrificados. O líder dos soldados estava, provavelmente a espreita, no aguardo de uma brecha oportuna na defesa do espião e usava os coitados como distração. Mesmo sabendo disso, Marue não podia se arriscar numa tentativa de aproximação amigável; acabara de matar um aliado dos dois sobreviventes na frente deles e não sabia qual o grau de afinidade eles tinham entre si.

O arcano chegou a conclusão de que tinha três opções: Podia tentar fugir sem terminar a matança que começou. Para ele seria simples despistar o velho e a mulher, mas o que o impedia de dar seguimento imediato ao plano era o sumiço misterioso do líder do bando. Era provável que da mesma forma que armou para que os soldados não escapassem o comandante tivesse feito o mesmo pensando nele. A outra era eliminar com os dois soldados restantes e chamar o último perseguidor para o combate corpo-a-corpo ali mesmo na clareira. E a terceira opção era coagir um dos sobreviventes de forma a receber deste informações referentes ao tal líder. Deixa-lo viver ou elimina-lo seria uma escolha que dependeria de como o sobrevivente se portasse.

Entretanto só precisaria de um sobrevivente e a probabilidade de sucesso do plano dependeria de quanto este sentisse que sua vida estava em risco. Sem titubear escolheu o velho como sua última vítima. Agora só restava pensar como mata-lo se expondo ao mínimo a ataques de terceiros.

(Continua)

Contos de Airehte. Fragmento IV. Fantasia.

Não teve que esperar muito. Ouviu o barulho de pessoas descendo de suas montarias pouco tempo depois de se posicionar num dos galhos mais altos e escondidos da árvore. Poucos instantes se passaram até que escutou o grito de uma das vítimas de suas armadilhas e em sequência a correria dos sobreviventes das minas. Não perdeu tempo e detonou as duas primeiras levas de bombas de vapor. A partir daí tudo ocorreu como planejará: Sem ter para onde ir, os sobreviventes seguiram pelo corredor livre de vapor e acabaram detonando as granadas de estilhaços ao esbarrarem nos fios que as conectavam. Mais mortos em questão de segundos. Os últimos perseguidores foram pelo caminho que sobrará e chegaram até a área central do perímetro de Marue. No total sobraram três: Uma mulher e dois homens; um rapaz e um veterano da Guarda, presumiu o mestiço. Dois vieram do corredor esquerdo e um do corredor direito.

Antes que o sobrevivente solitário do lado direito conseguisse se unir aos demais Marue'Nir se aproveitou da distração dele ao vê-los, apontou para ele uma flecha e disparou. A flecha perfurou o pescoço do jovem soldado e ficou atravessada, enquanto o pobre coitado caí no chão e se afogava no próprio sangue. Sangue que escorria em abundância do ferimento. A mulher demorou alguns segundos, mas percebeu de onde a flecha tinha vindo e rapidamente arremessou uma granada de raios; eles o queriam vivo. Queimado, mas vivo. Entretanto, o Arcano não esperou em cima da árvore a reação dos que estavam no chão. Assim que disparou a flecha desceu do galho em que estava e escondeu-se atrás de um dos troncos caídos. Não precisava se certificar que acertara o garoto. A demora da mulher fora suficiente para que pudesse se esconder sem ser visto. Não queria ir para a luta corpo-a-corpo com eles. Seria mais rápido, mas desde que os soldados adentraram a floresta Marue não sentia a presença de seu líder e não queria  dar uma possível abertura para um ataque que, sem dúvidas, seria fatal.




domingo, 12 de junho de 2016

Contos de Airehte. Fragmento III.Fantasia.

Continuou pela trilha até avistar uma parte da floresta, a esquerda, que lhe daria certa vantagem na batalha que estava por vir. Como enfrentaria sozinho um grupo de nove, de acordo com o número de vibrações que sentia, precisava ter a vantagem do terreno: O embate deveria ocorrer onde as árvores estivessem espaçadas de forma que favorecessem sua movimentação e atrapalhassem a coordenação e percepção de seus inimigos.

Desceu de sua montaria e com o assobio adequado sinalizou que ela deveria seguir em frente a todo vapor. Caso a luta durasse mais que o esperado talvez avistassem a montaria com o manto da Frente de Libertação e a notícia chegaria, em tempo "hábil", até as forças estacionadas na vila fronteiriça com a floresta. Entretanto, Marue'Nir sabia que mesmo sem guia e carga sua montaria não cruzaria a frontreira da floresta em menos de vinte minutos, logo não poderia contar com ajuda em um período de pelo menos quarenta minutos, sendo otimista. Mas isso não o tirava a concentração; aquilo tudo estava mais para hipótese que um plano propriamente dito.

Abriu as duas malas e separou os dispositivos que utilizaria. Como contou na estalagem, quando descobriu que estavam em seu encalço, tinha trinta e duas bombas sensíveis de vapor, seis minas de estalagmite, doze granadas de estilhaços e um ruptor, sendo que este último guardaria para o líder.  Calculou que ainda restavam cerca de cinco minutos até que o grupo chegasse no ponto da estrada em que parou. Sem encobrir direito as pegadas que deixava e sem perder mais tempo, adentrou a floresta e espalhou estrategicamente entre as raízes das primeiras árvores paralelas a estrada bombas sensíveis de vapor, que só explodiriam com sua ativação pelo próprio Marue. Em seguida colocou quatro minas de estalagmite entre algumas árvores aproximadamente vinte e cinco metros da estrada e ao lado destas colocou uma série de bombas de vapor que impediriam que os grupo seguisse em frente.

Queria poder usar algo mais "quente", o que favoreceria sua Arte Arcana, mas não queria iniciar um incêndio e atrair a atenção de mais criaturas hostis. Os habitantes da floresta protegiam-na desde dos tempos dos Governantes da Noite e o espião não pretendia se tornar alvo da fúria de tais criaturas.
De fato, teria grandes dificuldades caso aquela luta fosse elevada para um embate entre Arcanos. Aquele era o pior lugar para um mestiço de fogo que não sabia seu elemento par. Caso esse cenário virasse realidade Marue estaria em grande desvantagem. Ele precisava fazer o melhor uso possível de seus dispositivos arcanos e com eles eliminar ou incapacitar os oito mais fracos. Pelo tamanho das vibrações deveriam ser simples soldados com domínio básica de Arcanas de combate; o suficiente para nocautear camponeses ou arcanos iniciantes exaltados, mas não um conhecedor do quarto círculo como Marue. 

Colocou algumas granadas de estilhaços nas fendas das cascas de algumas árvores que margeavam as rotas que seriam usadas por aqueles que tentariam escapar do vapor das bombas e as minas, cujo o numero eles não desejavam conferir. Não podendo voltar e muito menos seguir em linha reta, seriam forçados a correr para as rotas  diagonais onde as granadas incapacitariam, na contagem do fugitivo, ao menos mais três soldados. Os sobreviventes destas duas ondas de ataques, já atordoados, seriam direcionados para a zona central do perímetro montado por Marue'Nir. As bombas restantes fariam esse papel impedindo que se dispersassem entre as árvores. No meio desta zona está uma clareira onde uma única árvore permanecia de pé. As demais e seus fragmentos estavam deitadas no chão no que parecia o resultado de um embate entre dois animais ou monstros. Não havia carcaça para se identificar a espécie e o espião estipulou que fossem encouraçados machos.

Seria nesta clareira que o mestiço iria enfrentar diretamente aqueles que tentavam captura-lo. Enquanto isso, esperaria na copa daquela árvore solitária o iniciar e cessar dos gritos de seus inimigos. 

(Continua)

  

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Contos de Airehte. Fragmento II. Fantasia.

O fato do perseguidor não ocultar sua presença na caçada indicava duas coisas: Ele acreditava piamente que, de qualquer forma, o resultado daquela perseguição seria favorável  à ele ou ele sabia, por mais que o mestiço tentasse abafar o ruído da sua presença, exatamente onde estava seu alvo. Porém,  Marue'Nir começava a perceber que uma terceira possibilidade estava claramente se apresentando como o que realmente estava acontecendo: eram ambas a coisas. A saída da floresta mais próxima à algum lugar protegido por forças aliadas da Frente de Libertação e Resistência ainda estava quilômetros dali e a opção que um fugitivo experiente, sozinho e com conhecimento da área escolheria era a de se esconder na floresta para despistar seus perseguidores e vagarosamente dirigir-se à saída sem retomar a trilha principal, desviando de Terrores, monstros e espíritos hostis. Uma alternativa necessária, porém, muitas vezes mais perigosa que enfrentar os inimigos.

Agora, pelo referencial do perseguidor, sabendo do destino do alvo e da referente distância logo presumiria que a tentativa de o despistar era a escolha mais provável da presa. Logo permanecer tão oculto quanto o alvo era um pré-requisito para o sucesso da missão naquele ponto. Ao não faze-lo, aquele caçador misterioso mandava uma mensagem à Marue. E a mensagem era clara: " Eu sei onde você está".

Sendo assim,  ao jovem fugitivo só restava uma escolha: enfrentar a coisa e os demais que o perseguiam, na esperança que a convicção do causador daquela vibração e sua própria sensibilidade estivessem equivocadas. Mesmo que os anos de espionagem sussurrassem em sua mente que ele não estava errado.

(Continua)

Contos de Airehte. Fragmento inicial. Fantasia.

Marue' Nir  sabia que estavam quase o alcançando. Também sabia que não podia exigir mais de sua montaria numa trilha tão irregular e esquecida no meio da floresta. Especialmente naquela floresta. Tivera sorte, de certa forma, que o único perigo a ameaça-lo naquele momento era um perigo conhecido e esperado. Enuin Haziferr guardava muito males conhecidos pelos povos de Airehte. Porém, os que realmente marcavam presença nos piores cenários imaginados pelo mestiço velado de fogo, desde que decidira entrar na floresta maldita para fugir, eram aqueles conhecidos apenas pelos poucos que se atreviam andar pelas trevas mais densas deste mundo. Pessoas como ele e pelo menos um de seus perseguidores.

Ele podia sentir que quem quer que estivesse liderando aquela busca por ele não pertencia à mesma liga dos demais que o acompanhavam. Ao contrário de Marue, o líder dos que estavam em seu encalço não fazia esforço algum para reduzir o ruído. Aliás, o reverberar da presença dele parecia mais um grito doloroso que apenas um ruído. Algo quase inumano; algo que se assemelhava com os terrores secretos de Haziferr.

(Continua)